J. Galvão


14/03/2009


Big Cultura?

 

 

 

 

Muitas pessoas que me conhecem dizem que tenho muita cultura, pelo fato de estudar música erudita desde criança. Essas mesmas pessoas acreditam veementemente que não ouço rock, não assisto novelas, não gosto de forró e só converso sobre Chopin. Mas forró não é cultura? Novela também não? Eu achava que fosse!

            Confesso que não suporto o Big Brother, mas também admito que assisti a primeira edição do programa e percebi que é totalmente “sem futuro”, mas não deixa de ser cultura. “Uma cultura sem futuro?” É “sem futuro” pelo fato de não contribuir em nada para o telespectador ao findar os meses de confinamento dos participantes naquela casa. Mas é cultura porque possui espectadores que torcem pelos candidatos ao prêmio final como se torcessem por um personagem de algum filme, de alguma peça teatral ou até mesmo de algum romance. Trata-se de uma cultura midiática de entretenimento.

            Nem Mozart, nem Bach têm tanta “audiência” no Brasil quanto o BBB e também não causam a nostalgia deixada por muitas novelas brasileiras e filmes hollywoodianos, mas são considerados superiores ao forró dos eternos Sivuca e Luiz Gonzaga. O fato de Beethoven ser cultura para mim, não me dá o direito de extirpar a cultura do Big Brother da vida de milhões de brasileiros.

            O BBB faz parte de uma cultura pouco analisada, porém muito criticada pelos teóricos, mas que está inserida no cotidiano de diversos brasileiros. A cultura das mídias, que surge e desaparece repentinamente, está cada vez mais intercalada com a rotina das pessoas que vez por outra conversam sobre a novela, sobre o Caldeirão do Huck e o próprio BBB, e debatem entre si a respeito da personalidade dos personagens e sobre a qualidade dos próprios programas. Isso não seria algo cultural?

            É evidente que as emissoras televisivas poderiam investir em algo mais educativo, se empenhando em trazer ao público um meio de contribuir para a formação intelectual, a fim de ampliar a visão de mundo dos telespectadores e contribuir para orientá-los como indagar e formular questões sobre a sociedade. O problema é que esta não é a função primordial da televisão, mas, sim, das escolas.

            O Big Brother ilude porque traz consigo um misto de cores, um entretenimento fútil que atrai o cansado trabalhador – independente de classe social, algo para espairecer, para esquecer as complicações do emprego, para rir um pouco (mesmo que seja para rir dos outros!). É por conta desse jogo entre realidade e imaginação, iluminação e cores, que os programas televisivos conseguem tanta audiência. É a cultura midiática entretendo profissionais liberais, empregadas domésticas, advogados, psicanalistas e até mesmo professores universitários. Vai dizer que você nunca viu, pelo menos uma vez, o polêmico BBB?

            É interessante que o Big Brother tem sido absorvido por diversos meios de comunicação. Revistas falam sobre o que ocorre na “casa”, sites comentam sobre as provas do programa, jornais locais falam sobre o participante que mora na cidade onde está inserido o jornal, e em todos estes meios de comunicação há público para dar audiência. Idosos, adolescentes, adultos e até mesmo crianças votam nos seus candidatos e opinam sobre as atitudes de cada participante.

Por mais que o programa seja banal, é necessário entender a cultura midiática da televisão como um grande complexo, uma mistura de linguagens visuais, verbais e sonoras que aguça vários sentidos do corpo. A interatividade entre emissor e receptor através das votações, das enquetes de rua, das ligações (quando o espectador pode ouvir o microfone do seu participante preferido), contribui muito para que as edições deste programa não terminem tão cedo. O fato de o público gostar do programa também se deve a sua identificação com as atitudes dos participantes. Não é a toa que milhões de brasileiros assistem assiduamente ao BBB.

A fusão da cultura do “belo” intercalada com o “grotesco” é uma das prováveis razões que elevam a audiência do programa. As mulheres formosas disputando por um milhão de reais, seus cabelos com a tintura caindo, suas barriguinhas crescendo, suas conversas fúteis, discussões sobre: “seu peito é caído!”, tudo isso dá muita audiência... Mas por quê? Acho que a esta pergunta só quem poderá responder são os doutores em psicanálise...

Por mais que rejeitem o BBB como produto cultural, os teóricos não podem negá-lo como um produto de diversão, de entretenimento, pois seria o mesmo que negar a existência de sua audiência que é constante, em grande número e fiel. Será mesmo que se o BBB fosse educativo, intelectual e menos lascivo daria tanta audiência? Acredito que não, até porque a cultura brasileira é a cultura carnavalesca, a cultura das minissaias, das calças apertadas, dos beijos prolongados em público, dos muitos “ficas”, das farras sem hora para terminar, dos namoros a três... Infelizmente é disso que o nosso povo gosta, com exceções, como em todo lugar.

Enfim, o Big Brother faz parte dessa cultura das mídias que, ainda mal compreendida por muitos, tem se enraizado nas sociedades democráticas e feito parte do cotidiano das pessoas, e se está no cotidiano, é claro que é cultura. Por mais que eu ame a música erudita, não posso negar que gosto de forró! Seria negar minha identidade cultural. Mas, por favor, né... Defender o BBB como cultura de mídia é uma coisa, mas acreditar que ele é um bom programa de televisão é outra...

Escrito por jornalista galvao às 15h43
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