J. Galvão


21/10/2008


Eu prefiro o "Bobby"

            

 

                          

 

           

         Definitivamente, é muito bom ser criança! Lembro-me bem das minhas brincadeiras. Eu imitava Xuxa, queria ter a pinta da Angélica e ser amiga íntima de Eliana “e seus dedinhos”. “O Fantástico Mundo da Imaginação do Bobby” era meu desenho favorito, talvez porque eu me identificava demais com Bobby – um garoto de cinco anos, com o pé maior do que o do pai e com a mente mais fértil do que terra de plantar capim.

            Eu queria ter um cachorro só pra batizar de “Priscila”, a cadela mais simpática da “TV Colosso”. Quando tinha seis anos, eu assistia a série “Superman”. Recordo bem as minhas fugas rápidas da sala toda vez que estava no final de algum episódio da série, porque terminava de quase meia-noite e meu pai sempre reclamava e dizia: “Ainda ta acordada, menina?”.

            Os anos se passaram e as imitações e brincadeiras se tornaram mais sofisticadas... Eu colocava meus ursinhos de pelúcia para assistir peças de teatro (eu era a atriz principal, claro...) e posicionava as minhas bonecas para assistirem ao telejornal... “Telejornal?” Pois é... Eu nem imaginava me tornar uma jornalista algum dia, mas amava imitar William Bonner. Rabiscava algumas coisas nos papéis, sentava no chão por trás do banquinho de madeira e fazia dele a bancada do jornal. As bonecas ficavam do outro lado, assistindo ao noticiário. Era ótimo!

            Mais uma vez os anos se passaram e estou aqui, criticando William Bonner... Que contradição! Meu “ídolo” do jornal e a minha “grande apresentadora” Xuxa estão entre as piores coisas que já vi dentro da TV. Não retiraria jamais os méritos de Bonner como jornalista, até porque cada jornal – mesmo os de qualidade infame – tem suas contribuições peculiares para cada grupo social. Quanto a Xuxa... Uma apresentadora com um programinha racista, que transformava as crianças brasileiras em reféns da mídia norte-americana, que sempre excluiu o negro e propagou a raça “ariana nórdica” como a superior na TV.

            Era bom acreditar que o Jornal Nacional era perfeito e que as letras do “Mamonas Assassinas” eram inocentes – eu cantava todas elas... Um dia desses, quando ouvi outra vez “Robocop gay”, “Sabão cracrá”, “Pelados em Santos” fiquei estarrecida com o contexto das letras obscenas, promíscuas e nem um pouco infantis. Mesmo tendo apenas setes anos – não faz tanto tempo assim... – consigo lembrar da mídia impulsionando as crianças a cantarem, brincarem e pularem com aquelas músicas e o público infantil era o que mais gostava do “Sabão cracrá”.

            Quando eu tinha dez anos, o momento era promissor para aquela bunda... Ops! Para aquela banda que cantava o “Tchan”, que “descia na garrafa” e que tinha um “pau que nasce torto nunca se endireita” estourar na mídia. Lembro que fizeram até uma boneca que vestia as mesmas roupas das dançarinas e que as crianças também podiam usar. Lembro das minhas amigas com as “poupanças” aparecendo e os meninos dando risadas... Elas tinham apenas dez anos e me parecia que quanto mais a TV percebia isso, mais investia na prostituição infantil midiatizada e descarada mistificada pela imagem “pueril” das dançarinas. Eu gostava do “Tchan”, mas não entendia porque minha mãe odiava...

            Agora eu consigo entender porque a prostituição infantil ainda é divertida para alguns pervertidos. A mídia tem se desenvolvido muito neste aspecto, tem realmente dado “um grande salto” para que a porcentagem dessa atitude imoral não caia. Estou compreendendo agora porque quando eu tinha seis anos eu gostava de “Bob” e hoje, minha vizinha de dez anos gosta de “chupa, chupa, chupa que é de uva”... A mídia gosta de “endemonizar” a mente inocente. A televisão gosta de “sujeira” e se reveste de um falso amor e caridade no disfarce de William Bonner ou Fátima Bernardes...

            Os jornais noticiam doentes mentais que matam para conseguir dinheiro, psicopatas que seqüestram por amor, filhos que maltratam os pais... Algo parecido com o que acontece nas telenovelas? Os escritores falam que reproduzem o cotidiano, mas não poderia ser o cotidiano uma reprodução da telenovela? Falam de uma suposta paz e um suposto amor, mas introduzem nas mentes inocentes os desenhos mais violentos, mais vingativos e doentis dos últimos tempos.

            Às vezes sinto raiva da mídia que tentou roubar minha inocência – graças a Deus ela não conseguiu. Mas ao mesmo tempo sinto vontade de voltar a ser criança e fazer as mesmas coisas... Eu era inocente demais para tentar entender o que a mente podre de um adulto queria me passar. Mesmo não sendo mais criança, continuo a preferir “O Fantástico Mundo da Imaginação do Bobby” do que o Jornal Nacional, porque para mim a vida de Bobby é mais real.

Escrito por jornalista galvao às 17h04
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BRASIL, Mulher, Estudante de Comunicação - Jornalismo

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