
Estamos no início de mais uma Campanha Eleitoral para escolhermos prefeitos e vereadores. Ao recordar as últimas eleições, realizadas há dois anos atrás, quando deputados, senadores e presidente foram eleitos, pude perceber que o candidato à Presidência da República, Cristóvam Buarque, do PDT, foi realmente o que apresentou a melhor proposta.
Muito criticado por falar apenas em Educação, vejo hoje o quanto Cristóvam Buarque poderia ter contribuído ao Brasil caso ocupasse o cargo da Presidência. É evidente que não se pode confiar na palavra dos candidatos às eleições, entretanto, se daquela vez a proposta fosse efetivada, o Brasil teria feito a melhor escolha.
O problema é que tem se investido muito pouco na educação brasileira. O número de analfabetos continua altíssimo e, quando se é considerado escolarizado, a maioria dos alunos consegue apenas decodificar as palavras.
Para Ângela Kleiman, em “Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura”, não poderá haver compreensão textual se o leitor não tiver o conhecimento prévio lingüístico. É necessário conhecer o vocabulário, a pronúncia e as regras sobre o uso da língua. Não basta apenas decodificar as palavras.
Outros aspectos que são imprescindíveis para a conquista da compreensão textual são os conhecimentos textuais – que é o conjunto de noções e conceitos sobre o texto – e o de mundo – que é o conhecimento em determinado assunto, tanto em áreas especializadas por profissionais quanto em questões básicas. Sem o engajamento desses três conhecimentos prévios, que se dá no âmbito da leitura, o leitor jamais conseguirá compreender o texto.
Mário Porini, da UFMG, em seu texto “A leitura funcional”, acredita que a maior parte da população brasileira adulta é funcionalmente analfabeta. Ela é impedida de se informar e de formar sua opinião sobre uma gama crescente de assuntos.
O analfabeto funcional corresponde àquela parcela da população que sabe ler e escrever, porém não adquiriu educação suficiente para a compreensão adequada de um texto. Esta parcela de “alfabetizados” pode ser encontrada até mesmo no Ensino Médio. Essa realidade leva a crer que a escola não está conseguindo alfabetizar funcionalmente os estudantes brasileiros.
Anteriormente falei que é necessário o conhecimento de mundo para que haja sentido no processo da leitura. O grande problema é que, se o cidadão não possui uma educação básica adequada nos campos da Geografia, História, Ciência, Matemática e do próprio Português, é impossível compreender o texto mais simples que existe.
A falta da democratização informacional também tem afetado a construção particular desse conhecimento prévio de mundo. A precariedade das condições sócio-econômicas é um dos maiores impulsionadores para a crescente massa de analfabetos funcionais. É complicado investir quase R$40,00 ao mês para a aquisição de uma assinatura de uma revista semanal. Fica financeiramente difícil investir na assinatura de um jornal diário quando o que o salário líquido não chega a R$ 800,00.
É interessante salientar que até no nível acadêmico as condições econômicas também fazem toda a diferença. Quando o Governo Federal deixa de investir em alguns cursos de graduação a Biblioteca empobrece. Quando isso ocorre, o estudante, que não tem condições para adquirir livros, tem seu curso prejudicado por falta de conhecimento especializado.
A democratização informacional consiste na difusão destes conhecimentos de mundo para toda a população. Caso Cristóvam Buarque efetivasse sua proposta, ele teria que, obrigatoriamente, investir nesta democratização para que pudesse ver seu ideal realizado com sucesso.
O Governo deveria investir na construção e na manutenção de bibliotecas públicas federais, pois este seria o primeiro passo para a democratização informacional. O investimento em programações com alto valor cultural em canais abertos televisivos seria essencial para a formação intelectual e cultural do povo brasileiro.
Vale salientar que a preocupação com as bibliotecas se daria também no âmbito da Internet, dos jornais e das revistas. Seriam grandes espaços voltados para a construção e o desenvolvimento do saber. Elaboração de livros criados através da junção de artigos de estudantes, além de fomentar o incentivo a prática da leitura, impulsionaria o surgimento de novas idéias e técnicas em diferentes áreas de conhecimento. Além disso, elevaria a auto-estima do alunado das classes sociais mais baixas da sociedade.
A falta de investimentos na fase pré-escolar, sobretudo na alfabetização, tem prejudicado as crianças que, num futuro próximo, sentirão falta de uma base educacional mais profunda. A péssima qualidade do conteúdo dos textos disponíveis para alunos de baixa renda tem agravado o problema.
Adolescentes que não conseguem assimilar idéias e possuem enorme dificuldade para responder a questionamentos a respeito do próprio lugar onde vivem são tendenciosos a estarem na “lista” dos analfabetos funcionais.
A Grécia é considerada o berço da civilização ocidental por ter investido alto na educação de qualidade. Em Atenas, a arte se mesclava com as Ciências Exatas e Sociais. O povo ateniense fez parte de uma sociedade desenvolvida e exemplar porque seus representantes conseguiram educá-los a não apenas absorverem informações, mas os impulsionaram a aprender a pensar.
Segundo José Marques de Melo, a educação está entre os fatores básicos para o processo de formação de opiniões individuais. Através dela, o cidadão delineia suas normas de conduta e amplia seus conhecimentos do mundo.
O problema é que no Brasil, nem a educação clássica – a que se aprende na escola – nem a educação informal – a que se aprende com as experiências pessoais e com a arte – têm sido consideradas importantes para receberem urgentes investimentos.
A verdade é que nossas autoridades não desejam que a população compreenda o mundo através da educação, justamente para não saberem quais são os direitos de cada cidadão. A educação é de suma importância para alicerçar todo o desenvolvimento de uma nação.



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